sábado, 7 de maio de 2016

QUAL A DIFERENÇA ENTRE VAGINISMO E DISPAREUNIA?

Na próxima semana darei uma aula no Congresso Mineiro de Ginecologia e Obstetrícia, que acontecerá em Belo Horizonte, entre os dias 11 e 14 de maio. O tema de minha aula é: DSM-V, A NOVA NOMENCLATURA DAS DISFUNÇÕES SEXUAIS, IMPLICAÇÕES CLÍNICAS.
O tema desta aula incentivou-me a escrever algo sobre as síndromes de dor sexual, chamadas até agora de VAGINISMO E DISPAREUNIA. Mesmo no meio médico, pouca gente sabe o que é isso, ou qual a diferença entre essas duas disfunções sexuais. 
Diz-se que a mulher é portadora de vaginismo quando ela de alguma forma atrapalha ou impede a penetração vaginal(seja pelo pênis, ou por absorventes íntimos, ou por aparelhos ginecoógicos, ou brinquedos sexuais) devido a  uma contração dos músculos internos da pelve. O vaginismo pode ser completo. Nesse caso a mulher não consegue obter qualquer tipo de penetração vaginal. Pode ser, por outro lado, incompleto, permitindo alguma ou total penetração, porém com contração dos músculos da pelve, ou até dos músculos de todo o corpo.  Já a dispareunia é a dor à penetração. A mulher não tem uma contratura da vagina à penetração, mas sente dor, seja durante a relação sexual, a masturbação, a introdução de outros objetos, etc., e às vezes mesmo sem nenhuma penetração. 
O DSM-V, que é a quinta edição do manual da Associação Psiquiátrica Americana(APA) que regula os diagnósticos das doenças mentais retirou esses dois diagnósticos da publicação, englobando-os em um único nome: Transtornos da Dor Genito-Pélvica e da Penetração. Isso porque a a dispareunia e o vaginismo são às vezes indistinguíveis um do outro ou quase sempre aparecem juntos. O componente atual  destas duas disfunções é um medo da penetração vaginal, seja porque ela causa dor, sente porque a mulher tem medo de sentir a dor. O grau de medo varia de mulher para mulher, podendo  chegar a ser uma verdadeira fobia. Hoje em dia há muitos tratamentos para a dispareunia e o vaginismo, ou como quer o DSM-V, para o transtorno da dor gênito-pélvica e da penetração, mas sabemos que o melhor de todos os tratamentos é interdisciplinar. Medicina, psicologia e fisioterapia, principalmente, podem oferecer uma abordagem conjunta para a melhor resolução. Estas síndromes são mais complexas do que parecem e existe até uma associação internacional para o estudo delas. Só muito recentemente na medicina passamos a dar a verdadeira importância a elas, pois entre 15 a 25% das mulheres a possuem. Abaixo vou colocar a nomenclatura atual (do DSM_V) para o transtorno da dor gênito-pélvica e da penetração, para que as mulheres possam saber do que se trata. 
O DSM-V, tem alguns critérios básicos para a classificação de todas as disfunções sexuais, que é muito importante ter em mente para não tornar todas as mulheres doentes. Para que se classifique alguém como tendo o transtorno de dor gênito-pélvica e da penetração é preciso que :
a) o transtorno esteja ocorrendo há mais de 6 meses
b)Ele ocorra em mais de 75% das tentativas de penetração vaginal
c)Ele esteja provocando sofrimento psíquico à mulher(esse critério é muito importante).

Se então, os três critérios acima existirem  chamaremos de transtorno da dor gênito-pélvica e da penetração(segundo o DSM-V):
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TRANSTORNO DA DOR GÊNITO-PELVICA/PENETRAÇÃO(Genito-pelvic pain/penetration disorder)
A. Dificuldades persistentes ou recorrentes com um (ou mais) dos seguintes:
1. Penetração vaginal durante a relação sexual.
2. Dor vulvovaginal ou pélvica intensa durante a relação sexual vaginal ou nas tentativas
de penetração.
3. Medo ou ansiedade intensa de dor vulvovaginal ou pélvica em antecipação a, durante ou
como resultado de penetração vaginal.
4. Tensão ou contração acentuada dos músculos do assoalho pélvico durante tentativas
de penetração vaginal.


Na faculdade de Ciências Médicas, onde trabalho e coordeno o ambulatório de sexologia, fazemos trabalhos interdisciplinares sobre dor sexual, principalmente em conjunto com o departamento de fisioterapia da saúde da mulher. Em meu consultório particular, já atendi uma centena de mulheres com dor sexual. Essas mulheres  perambulam de consultório em consultório sem encontrar tratamento adequado, pois o conhecimento do problema é pequeno, entre os profissionais. Trata-se de uma área em que os estudos são crescentes. Há muito interesse no tema. 
A síndrome de dor sexual é uma síndrome psicossomática e assim deve ser abordada. Está fora do escopo deste artigo aprofundar mais sobre as causas, os procedimentos de tratamento, etc...
Para as mulheres que entendem bem a língua inglesa, indico um livro sobre o tema, escrito para leigos, denominado "When Sex Hurts ", de Andrew Goldstein, Corline |Pukall e Irwin Goldstein,, editora Da. Capo, Press., Em português há um livro específico de Fátima Protti e Oswaldo Rodrigues Júnior, intitulado "Vaginismo" da editora Biblioteca 24x7. Há artigos meus publicados em várias revistas médicas e no meu blog em artigos anteriores(onde se encontram as referências aos artigos)
O mais importante é a mulher entender o que tem e saber onde e como procurar ajuda, e acreditar que é possível ter uma vida sexual sem dor.

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